No final de 2025, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou o Caderno de Eletromobilidade do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035). Este documento é a bússola para o planejamento do setor elétrico brasileiro, servindo de base para investimentos em transmissão, distribuição e geração de energia para a próxima década.
Como protagonistas do ecossistema de recarga, analisamos o estudo com atenção. O PDE 2035 cumpre seu papel institucional ao sinalizar as necessidades de infraestrutura, mas o dinamismo do mercado em 2025 e as projeções para 2026 sugerem que a realidade está avançando em uma marcha muito mais veloz.
O Estudo vs. A Realidade das Ruas dos Veículos Leves
O PDE 2035 projeta que o Brasil atingirá a marca de 125 mil emplacamentos de veículos leves plug-in (PHEV + BEV) em 2026, chegando aos 188 mil apenas em 2030. No entanto, os dados consolidados de 2025 e o apetite do consumidor mostram um cenário diferente:
- Realidade 2025: O mercado já superou as expectativas, fechando o ano com cerca de 182 mil unidades de veículos leves do tipo plug-in (PHEV + BEV) licenciadas.
- Projeção de Mercado 2026: Enquanto o estudo oficial prevê 125 mil unidades, o setor automotivo projeta licenciar cerca de 300 mil veículos plug-in em 2026.
- O “Gap” de Tempo: Se a projeção de 300 mil se confirmar, o mercado atingirá em 2026 um volume que a EPE estimava apenas para o final da década.
Infraestrutura de Recarga: O Desafio da Expansão
Para que essa frota se mantenha em movimento, a infraestrutura de recarga é o pilar central. O estudo da EPE indica uma trajetória de crescimento necessária para atender à frota:
- Necessidade em 2030: Para manter a média mundial de 1 carregador público/semipúblico para cada 10 veículos leves, o Brasil precisará de aproximadamente 150 mil pontos de recarga em 2030.
- A Meta de 2035: Com a frota acumulada, a necessidade salta para 370 mil carregadores.
- Aceleração Urgente: Iniciamos 2025 com cerca de 15 mil pontos. Para acompanhar o ritmo de licenciamento que já estamos observando, a expansão precisará ser antecipada e muito mais agressiva do que o planejado originalmente.
Impacto Energético: Uma Comparação Necessária
Um dado tranquilizador do PDE 2035 é a demanda de energia. A EPE projeta que a frota eletrificada consumirá cerca de 7,8 TWh em 2035. Para colocar esse número em perspectiva:
- Consumo Total Brasil (2025): O país consome hoje aproximadamente 562 TWh anuais.
- A Frota em 2035: Mesmo com milhões de carros elétricos nas ruas, o consumo dessa frota representará apenas cerca de 1,4% de toda a energia que o Brasil consome hoje. Mesmo que estes números estejam subestimados, não seria de todo estranho pensar em um consumo da ordem de 5,0% de toda a energia que o Brasil consome hoje, não sendo algo tão desafiador para expansão da geração em 10 anos se analisado de maneira isolada.
Isso reforça que o desafio não é somente a geração de energia, mas sim a infraestrutura de rede para entregá-la nos locais de recarga rápida e hubs urbanos.
Perspectiva do Setor: O Estudo Anfavea/BCG sobre Projeção de Frota
Para termos uma visão completa, é essencial contrastar o planejamento do governo com o estudo realizado em 2024 pelo Boston Consulting Group (BCG) a pedido da Anfavea. Este relatório é utilizado pelas montadoras para planejar a produção e a infraestrutura de suporte, e seus cenários são significativamente mais otimistas:
- Vendas Anuais de Plug-ins (PHEV + BEV): Enquanto a EPE projeta 188 mil unidades anuais para 2030, o cenário de convergência da Anfavea/BCG aponta que poderemos atingir entre 450 mil e 500 mil licenciamentos já naquele ano.
- Participação de Mercado: O estudo da Anfavea sugere que, em 2030, os eletrificados podem representar até 20% das vendas totais, chegando a um patamar de 40% a 50% em 2035. No PDE 2035, a EPE trabalha com uma participação de apenas 23% para os plug-ins no mesmo período.
- A Frota Circulante: O grande diferencial do estudo da Anfavea é o olhar para a frota total. A estimativa é de uma densidade de veículos elétricos muito maior, o que pressiona a necessidade de carregadores públicos para além dos números oficiais.
Reflexões e Próximos Passos
Não se trata de questionar a solidez do PDE 2035, que é um documento técnico fundamental. Entretanto, é natural que um setor tão inovador apresente desvios positivos. Fica o questionamento: se a adoção dos veículos plug-in continuar superando as estimativas, como acelerar os investimentos em redes de distribuição para evitar gargalos?Certamente, as próximas revisões da EPE deverão incorporar esses novos patamares de mercado. Na RECAR, seguimos acompanhando essa evolução para garantir que a infraestrutura de recarga seja o motor, e não o freio, dessa transformação.